Nas históricas caves da Niepoort, em Vila Nova de Gaia, onde o silêncio da pedra guarda décadas de história vínica, teve lugar um encontro marcado pela memória, pelo tempo e pelo vinho. Foi neste cenário carregado de identidade que Pedro Silva, fundador da Wine Book Magazine, se sentou à conversa com Dirk Niepoort, numa entrevista que rapidamente se transformou num diálogo sobre tradição, inovação e o futuro do vinho português. Rodeados por tonéis antigos, pelo aroma profundo da madeira húmida e pela luz suave que atravessava o pó suspenso no ar, a conversa decorreu num ambiente descontraído, refletindo o espírito inconformista e apaixonado de Dirk. Cada resposta surgia com a naturalidade de quem cresceu entre vinhas e barricas, cruzando histórias familiares, reflexões sobre o Douro e a visão de um produtor que nunca deixou de desafiar os limites do vinho. A conversa foi acompanhada por um momento particularmente simbólico: um Niepoort Vintage 1985, o ano de nascimento de Pedro Silva. Servido com a calma de um ritual que os grandes Vintage exigem, sublinhou a ligação entre gerações, trajetórias e paixões comuns.
Texto: Pedro Silva
Fotografias: Fotos D. R.
O Dirk é mais enólogo, contador de histórias ou provocador do vinho português?
DN: Enólogo não sou. Nunca estudei. Portanto, enólogo não sou mesmo. Sou alguém que gosta de vinho, que fez vinho, que faz vinho e que tenta respeitar as regiões, respeitar a nossa cultura e pôr o Douro no mapa, pôr Portugal no mapa.
Ainda te divertes com o vinho ou é uma responsabilidade a tempo inteiro?
DN: Não, não. Divirto-me muito. O vinho é a minha vida.
Qual foi o último vinho que te surpreendeu mesmo? Não vale ser um teu.
DN: Um Clos de la Roche, Borgonha 2018. Parti do princípio de que ia ser bom, mas não pensei que fosse tão bom.
Cresceste numa casa de vinho. Houve algum momento em que quiseste fugir disso?
DN: Não. Nunca fui pressionado para entrar no mundo do vinho, mas em casa o meu pai dava-me a responsabilidade de abrir garrafas e de decantar. Só quando fui para a Suíça, onde fiz estudos de Economia, é que comecei a interessar-me verdadeiramente pelo vinho.
Continuas a sentir-te um “outsider” do vinho português?
DN: Sim. As pessoas chamam-me um bocadinho de louco, de maluco. Sempre fui, aparentemente. Continuo a ser. Na verdade, nunca fiz nenhum vinho para alguém. Faço aquilo que quero, como quero, quando quero. E não sou apenas um sonhador. Tenho os pés assentes na terra. Mas sonhar ainda não paga impostos. Se não posso sonhar, tenho de acordar com os pés no chão.

Ainda falta mudar muita coisa no Douro?
DN: Não vou ser politicamente correto, mas acho que as pessoas deviam entender o caminho que o Douro fez, a desgraça que o Douro era e a zona fantástica que é hoje, em todos os aspetos. Se as pessoas respeitassem as mudanças positivas que houve, o património que existe, e fossem proativas, seria muito positivo para a região. É óbvio que as coisas não são fáceis. É uma zona dura, exigente, os rendimentos são pequenos. Mas a verdade é que, hoje em dia, o Douro vive um momento que, embora toda a gente fale mal, vive um auge como nunca teve. Claro que, neste momento, as pessoas estão em pânico porque as vendas estão a cair e tal… Há que ser mais proativo e fazer aquilo em que se acredita.
A palavra “terroir” está gasta ou ainda faz sentido?
DN: A palavra está um pouco gasta, mas é absolutamente fantástica. Só existe em francês porque não é o sol, não é a chuva, não é a casta — é uma combinação de muitos fatores. Os franceses, numa altura, começaram a fazer vinhos bastante mauzinhos e apareceram os australianos, os californianos, engenheiros a fazer tudo mais limpinho. Claro que criticavam alguns vinhos franceses por defeitos e, para o francês, não eram defeitos, era terroir. Em parte poderia ser, mas eram defeitos, ponto. Mas é uma palavra muito importante. Agora, também não há que exagerar. Hoje fala-se muito de Premier Cru e Grand Cru. Toda a gente tenta copiar a Borgonha, esquecendo-se de que a Borgonha nasceu devagarinho e criou, ao longo do tempo, uma estrutura muito própria. E agora parece que o mundo quer fazer em 10 anos aquilo que demorou 100 ou 200 em França. Isso já não me parece bem. Se for o dono de uma vinha, vai dizer que a sua é melhor do que a minha e não se chega a lado nenhum. Um bom exemplo é o Romanée-Conti. O vinho mais caro é o Romanée-Conti, pode ser justificado ou não. Mas o segundo mais caro e mais procurado é o La Tâche. Não é por ser menos; é porque é um lote maior e porque mostrou, nos últimos 100 anos, que é diferente. Para muita gente, o La Tâche é mais interessante, eventualmente melhor, do que o Romanée-Conti. O tempo ajuda a definir as coisas. Se quisermos ir à pressa, com política e regras a definir tudo, não funciona.
O vinho natural é moda, evolução ou correção de rumo?
DN: O vinho natural é uma moda complicada que penso que já atingiu o auge. O problema é que todos nós, talvez não os engenheiros, queremos fazer os vinhos o mais natural possível, com pouca intervenção, sem químicos. Agora, há um cliente que gosta apenas de vinhos naturais e fala mal de todo o resto, e uma pessoa chega à conclusão de que quanto pior o vinho for, com mais defeitos, melhor é. E aí já não jogo. Com esse jogo não concordo.
A Niepoort está mais tradicional ou mais irreverente do que há 20 anos?
DN: As duas coisas. Na verdade, diria que somos bastante tradicionalistas, porque a base de tudo o que fiz, e que vejo que o meu filho também quer fazer, é respeitar os velhinhos, respeitar o conhecimento empírico, juntar a isso conhecimento técnico e seguir um caminho próprio, baseado na cultura dessas duas dimensões. No vinho do Porto somos mais tradicionalistas, mas também fazemos coisas diferentes. É uma mistura.
O Porto ainda é o coração da casa ou já divide o palco com os vinhos de mesa?
DN: O Porto será sempre o coração da casa. Hoje tem menos importância em termos de faturação, mas é o bebé querido. É o passado, está sempre presente e espero que seja o futuro.

Há algum projeto interno que sentes que ainda não recebeu o reconhecimento devido?
DN: Não é uma questão de reconhecimento. Às vezes fazemos coisas a mais e eu tenho consciência disso. Por vezes, os projetos ficam um bocadinho perdidos e demoram mais tempo a afirmar-se. Mas um dos projetos que me entusiasma muitíssimo é o projeto de Kombucha. Pode dizer-se que não tem nada a ver com vinho, mas tem alguma coisa a ver com vinho. E penso que vai funcionar muito bem. Agora está a começar. O Dão está a demorar a acontecer, mas também devo dizer que foi a região de que menos cuidei. A partir do momento em que o meu filho Daniel assumiu essa responsabilidade, nota-se uma diferença muito grande e muito positiva. Penso que, em breve, as pessoas vão falar dos vinhos do Dão.
Há uma coisa que irrita certas pessoas: somos muito famosos pelos brancos, mas os nossos tintos são tão bons como outros. Primeiro, não fico preocupado. Segundo, não quero ser o melhor da cantareira. Terceiro, seguimos o nosso caminho. Se as pessoas gostam, gostam. Se não gostam, não gostam. É muito interessante ver que os nossos vinhos são hoje muito mais leves, mais “sexy”. Menos álcool, menos extração, menos madeira. E isso parecia impossível de vender. Hoje já não é bem assim. Ainda há fundamentalistas que gostam de outro tipo de vinho e está tudo bem. Não tenho nada contra ninguém. Mas começa a haver muita gente, mais lá fora do que cá, encantada com os nossos vinhos por serem mais finos, mais precisos, mais leves.
Sempre gostaste de sair do Douro. O que procuras quando fazes vinho fora?
DN: Acho que a razão principal é o “macaquinho” de querer fazer coisas muito distintas. Quanto mais fazemos fora da caixa mais entendemos o Douro. E mais entendemos Portugal. Para mim, pessoalmente, é uma escola muito importante. Eu não estudei, não nasci inteligente como toda a gente que sabe tudo. Vou aprendendo.
Existe algum país onde ainda sonhas fazer vinho?
DN: Já estou a fazer umas brincadeiras em Jerez, em Espanha. São coisas pequeninas, para já. Há uma região que gostava de visitar e que nunca visitei: Cognac. Não quero necessariamente fazer Cognac, mas acredito que, por detrás daquela fachada, haja muita cultura, muito passado. Gostava de conhecer a essência do que ali se faz.
O Douro está melhor do que há 15 anos?
DN: Em termos de vinho de mesa, muito melhor. Em termos de vinho do Porto, também diria que está melhor, em geral. O que acontece é que os vinhos médios e baratos estão cada vez melhores, mas os de topo, se calhar, não são tão bons como já foram.
O que te preocupa mais na região: clima, economia ou sucessão geracional?
DN: Normalmente, as pessoas. Existe um “bicho” que é o negativismo. Fala-se muito dos problemas. Instituições querem resolver tudo com regras, subsídios e burocracia. Eu não vou muito nessa conversa. Pego nos meus problemas e resolvo-os ou tento resolvê-los. É óbvio que o clima está a mudar. No Douro estamos habituados a situações extremas, por isso não é novidade. Penso que a Borgonha ou a Alemanha sofrem mais, porque não sabem tão bem o que fazer com estas mudanças. O Douro tem uma grande vantagem: vinhas entre os 80 e os 800 metros, exposições a norte e a sul. Se calhar, certas vinhas que eram as melhores vão tornar-se excessivas. O Douro Superior está na moda; talvez não se devesse ter plantado tanta vinha lá. Mas são modas.
Portugal vende vinho barato demais para a qualidade que tem?
DN: É fácil dizer isso. O nosso saudosismo leva-nos a dizer que somos os maiores, que temos os melhores vinhos do mundo. Mas durante muitos anos vendemos quantidade em vez de qualidade. Por causa de Salazar, da situação económica, das colónias, vendia-se gato por lebre. O cooperativismo foi exagerado. Portugal estava fechado, era difícil exportar. O único setor que funcionava bem era o vinho do Porto muito por mérito dos ingleses e estrangeiros. Estamos a pagar essa herança.
Qual a decisão mais impopular que tomaste no vinho?
DN: Talvez o Batuta 2014, por ser mais leve, com menos grau. Mas tomei muitas decisões impopulares. O Charme nasceu como uma coisa que não podia existir. Impossível de fazer, impossível de vender. Quase tudo o que fazemos é impossível. Na Bairrada seguimos um caminho diferente. Não inventei nada, já havia quem fizesse assim. Estou a tentar fazer melhor. Para respeitar a Baga, faz sentido fazer vinhos mais leves, mais precisos e finos. Isso não quer dizer que vinhos mais pesados não façam sentido. No início, internamente, toda a gente dizia que ninguém ia comprar os nossos vinhos.
Há demasiados vinhos “certinhos” em Portugal?
DN: Sim, mas não é só Portugal. É uma tendência mundial. Os vinhos estão melhores tecnicamente, num certo segmento, mas às vezes são piores, porque já não têm carácter, já não têm o sítio, já não têm o terroir. É um pau de dois bicos: é bom por um lado e é mau pelo outro.
Se pudesses mudar uma coisa no setor amanhã, o que seria?
DN: Choramingar menos e fazer mais. Fazer melhor. Acreditar naquilo que temos. Andar com a bandeira portuguesa como tenho feito há 40 anos que antes era quase inútil, parecia impossível. Hoje começa a haver uma onda positiva. Temos de continuar a acreditar nas diferenças e não copiar ninguém. Devemos encontrar aquilo que somos, aquilo que a terra nos dá, e fazer melhor. Acredito muito no nosso país. Temos tudo à mão. É só não destruir e fazer.
O consumidor português percebe mais de vinho hoje ou só acha que percebe?
DN: Falar de vinho é um bocadinho como falar de futebol. Todos sabem tudo, todos têm opinião. Hoje há mais informação, sem dúvida. Mas também há muitas histórias. Antigamente não se contavam tantas histórias; hoje contam-se muitas. Não sei se isso significa que se sabe mais.

O que pensas da nova geração que bebe menos, mas melhor?
DN: Segundo a minha filha, há claramente uma tendência para não beber no dia a dia, beber menos em geral, mas quando se bebe procurar algo mais excecional, mais especial. Não quer dizer que saibam mais, mas querem uma história bonita.
Quais os restaurantes portugueses que tratam bem o vinho nacional?
DN: O Gaveto, o Pedro Lemos são dois exemplos aqui do Norte. O Rui Paula também. Há alguns casos. Em Lisboa haverá mais, mas conheço melhor os do Norte.
O que ainda queres fazer que não fizeste?
DN: Quero, lentamente, passar a pasta. Neste momento é o meu filho mais velho, o Daniel, mas tenho três filhos. O objetivo é organizar tudo de maneira que eles não tenham as guerras que eu tive, porque dinheiro, poder e família é uma combinação muito complicada.
A próxima geração vai ter liberdade ou herdar um caminho definido?
DN: Vai ter liberdade, claramente. O Daniel pensa muito como eu pode não querer pensar como eu, mas pensa. Da minha parte, tem liberdade quase total. Falamos muito. É uma liberdade responsável. O Marco está a procurar o seu caminho; vive na Alemanha, é diferente. A minha filha é muito nova e quer estudar tudo, quer ser a melhor em tudo. Mas não sei se viverá o vinho da mesma maneira.
Como imaginas a casa daqui a 20 anos?
DN: Imagino a parte do vinho um bocadinho mais pequena, tudo mais perfeito, mais afinado. Uma viticultura muito melhor do que a que eu criei — que, na verdade, não era grande coisa. Eu queria salvar as vinhas velhas. O meu filho quer preservar o futuro. Ele planta vinha nova, mas respeita os velhinhos, as tradições, as vinhas velhas. Penso que parte da Niepoort vai viver muito do chá. Parece absurdo, mas já o digo há anos. Acho que vai ter uma influência muito grande.

Um vinho português subvalorizado?
DN: Verde de tinto.
Um produtor internacional que admira?
DN: O mais óbvio… Romanée-Conti. Mas para mim o melhor vigneron chama-se Jamet e os vinhos são de um outro planeta, geniais.
Um prato perfeito para um tinto do Douro?
DN: Cabrito tradicional, mas sem alho. Sou alérgico.
Um vinho que guarda para momentos especiais?
DN: Depende do momento e da pessoa. O momento especial não é para mim, é partilhado. Não há regra. Há vinhos predestinados a abrir com o meu filho, com a minha filha, pelo ano dela, pela região. Às vezes há mais uma dimensão didática do que apenas especial.
O que te faz abrir uma garrafa numa terça-feira normal?
DN: Depende de quem está comigo. Se for um estrangeiro, gosto de provocar e abrir um verde de tinto daqueles carrascões. Se for alguém que já gosta, já não preciso. Abro outra coisa provocadora. Não há regra.



