Há quem faça vinho. E há quem faça do vinho uma forma de estar na vida. Tiago Alves de Sousa pertence à segunda categoria. Cresceu entre vinhas, histórias de família e um Douro que lhe corre nas veias, mas cedo percebeu que respeitar um legado não significa limitar-se a repeti-lo. Para este enólogo, o vinho é identidade, liberdade criativa e, acima de tudo, uma expressão genuína do lugar de onde nasce. Neste Dia do Enólogo, que se assinala a 22 de outubro, a Wine Book Magazine dá a palavra a uma voz apaixonada pelo Douro, que defende a personalidade dos vinhos, questiona a desvalorização das uvas e acredita que a região tem ainda muitas razões para se orgulhar da sua história. Entre memórias familiares, desafios climáticos e reflexões sobre o futuro, Tiago Alves de Sousa revela-nos o que o move, o que o inquieta e por que razão um grande vinho deve ser muito mais do que uma bebida bem feita.
Texto: Pedro Silva e Maria Martinho
Fotografias: Fotos D. R.
Crescer numa família ligada ao vinho foi um privilégio ou uma espécie de destino inevitável?
TS: Acredito que a questão seja natural para alguém com fortes ligações familiares a uma determinada área, não apenas no vinho. O impulso sempre veio de mim próprio, não da família. Mesmo que seja natural que houvesse um desejo por parte dos meus pais de que algum dos filhos seguisse este mundo, nunca senti qualquer tipo de pressão. Até porque tenho duas irmãs mais velhas e um irmão mais novo e todos seguiram o caminho que desejaram, nenhum numa fase inicial ligado à tradição familiar. Se formos pressionados a seguir uma direção, o mais natural é seguirmos o caminho oposto ou rapidamente não nos sentirmos realizados e infelizes. Mesmo tendo eu próprio também outros interesses, como a música, matemática, ou arquitetura, desde muito jovem soube que a vinha e o vinho eram a minha vida.
O que aprendeste com o teu pai que nenhuma universidade te poderia ter ensinado? E em que momento sentiste necessidade de seguir o teu próprio caminho?
TS: Determinação, empatia e humildade. São valores que, mais do que transmitidos, tive o privilégio de sentir em primeira mão, acompanhando o meu pai no seu dia a dia. O orgulho pelo que o meu pai construiu, traçando o seu próprio caminho,é o meu maior exemplo e inspiração. Para estudar e preparar-me o melhor possível, para poder honrar, contribuir e dar continuidade a esse legado tão especial. E também eu próprio traçar, não um caminho separado, mas paralelo. Felizmente continuo a ter a honra de trabalhar com meu pai e com a minha família, mas a paixão pela vinha e pelo vinho pode ter diversas dimensões. E para mim tem muito de partilha. De crescimento conjunto para irmos mais longe. Daí a ligação à universidade, à UTAD, à qual regressei como professor da Licenciatura e do Mestrado em Enologia e Viticultura. É aí que está o futuro. Acredito que se todos dermos um pouco do nosso tempo para ajudarmos a preparar as novas gerações, o futuro de todos e, em particular, deste mundo da vinha e do vinho poderá ser ainda melhor. As novas gerações têm tudo para ser ainda melhores, levar-nos ainda mais longe. A atual facilidade de acesso ao conhecimento é incrível! Mas, ao mesmo tempo, há também muito ruído, que pode facilmente levar à dispersão e à perda de foco. Por vezes, basta uma pequena orientação para que eles também encontrem o seu caminho.

Por outro lado, o desafio que a Menin me lançou em 2020 vem também nesse mesmo sentido de partilha e de valores comuns. À época um novo produtor, ainda sem vinhos lançados, sem adega, que ninguém conhecia (eu incluído)… Na primeira conversa disse apenas que, antes de qualquer decisão, queria visitar a vinha. E quando chegamos aquela vinha velha, num contexto incrível, mas a necessitar de muito trabalho, e compreender que o propósito era precisamente recuperá-la, sem saltar etapas, num verdadeiro espírito de missão de preservação e valorização daquele património tão especial, vindo de alguém tinha chegado há tão pouco tempo ao Douro… valores que partilho e defendo… para mim tornou-se evidente que aquilo que pudesse fazer para ajudar, assim o faria.
O Douro está demasiado apaixonado pela sua própria história?
TS: Pelo contrário, o Douro devia estar ainda mais apaixonado e orgulhoso pela sua história, pela sua paisagem incrível e por ser sem dúvida uma das mais importantes regiões vitivinícolas do mundo. E não sou apenas eu a dizê-lo. Se falarmos com as maiores vozes do vinho do mundo, imprensa, colegas produtores, sommeliers, todo o tipo de profissionais e enófilos, todos estarão de acordo. Como não? Há desafios a ultrapassar? Claro que sim. Todo o mundo vive tempos complexos e o sector vitivinícola global não está imune a isso. O Douro naturalmente incluído, mas não mais do que os outros. Mais do que mensagens para fora ou manifestos na imprensa, vamos falar para dentro, unir a região, trabalhar todos juntos para os ultrapassar. O vinho do Porto representa um legado incrível que temos de defender, sobretudo pela qualidade, por aquilo que o torna verdadeiramente único. E com uma notoriedade e reconhecimento internacionais inegáveis. E em apenas 40 anos a região conseguiu igualmente reinventar-se com tintos, brancos, rosés, espumantes… uma diversidade incrível de novas expressões do território, com inovação, atualidade, qualidade e identidade. E, claro, o enoturismo. A natureza já tinha feito o mais importante, assim como as muitas gerações de durienses a moldar a paisagem de uma forma singular. Mas a oferta atual e crescente de infraestruturas, alojamentos, restaurantes, comércio, experiências nas quintas… o potencial é imenso.
Há alguma tradição no Douro que gostasses de ver desaparecer?
TS: Sim. A tradição do baixo valor pago pelas uvas aos viticultores. Sobretudo nas uvas para DOC Douro.
O que te incomoda mais num vinho: a falta de qualidade ou a falta de personalidade?
TS: A falta de qualidade é algo cada vez mais raro. Com o conhecimento atual, é praticamente obrigatório fazer vinhos com uma qualidade ajustada ao segmento a que se destinam. O que quer dizer que, quando surgem esses raros exemplos, destoam ainda mais. A questão da personalidade toca-me particularmente, pois aquilo que me apaixona no vinho é precisamente a sua capacidade de expressar um local, o seu solo, o seu clima, as suas gentes, a sua identidade. Um vinho sem personalidade não cumpre totalmente com o seu desígnio, e torna-se apenas mais uma bebida.
Já fizeste um vinho sabendo que não ia agradar a toda a gente? E isso deu-te mais prazer ou mais dores de cabeça?
TS: Sim, e deu-me muito prazer e praticamente nenhuma dor de cabeça. Vinhos com uma identidade mais vincada ou menos convencionais serão por natureza não totalmente consensuais. Existirão pessoas a apreciar muito e outras menos. Ou porventura a não compreender o seu propósito. No vinho, como na arte, pode e deve haver uma liberdade criativa que nos permita explorar caminhos novos, procurar novas expressões. Até porque a natureza nos oferece inúmeras variáveis e possibilidades, existindo, como tal, muitas interpretações possíveis. E as mais marcantes ou as mais originais serão muitas vezes difíceis de compreender de imediato e de agradar a todos. Mas é precisamente a quebrar barreiras ou ideias pré-estabelecidas que crescemos e evoluímos.
Há demasiados vinhos caros no Douro ou demasiados vinhos vendidos abaixo do seu verdadeiro valor?
TS: Sem dúvida, demasiados vinhos vendidos abaixo do seu verdadeiro valor. Numa região com custos de produção dos mais altos do mundo, produções por hectare baixíssimas, não deveria ser possível encontrar nas prateleiras vinhos abaixo de determinado valor.
O mundo do vinho tornou-se demasiado sério para o seu próprio bem?
TS: Já foi mais e creio que estamos no caminho certo. O vinho padeceu, em alguns circuitos, de algum elitismo e intelectualização exacerbada. A forma de o comunicar era de tal forma elaborada e complexa que, a pessoa comum, que naturalmente poderá não ter tempo para aprender e dominar tal vocabulário, acabava por se sentir de alguma forma excluída e se afastar. Hoje em dia existe uma cada vez maior democratização do gosto e uma forma de comunicar mais directa e, como tal, capaz de tocar um público mais alargado.
Qual foi o último vinho, que não fosse teu, que te fez parar, pensar e dizer: «Uau, gostava de ter feito isto»?
TS: Há inúmeros vinhos que provo, compro e que muito aprecio e respeito, até porque, antes de ser enólogo, sou também enófilo e consumidor. Mas prefiro disfrutar do trabalho dos colegas, não colocando a questão nesses termos. Existem, ainda assim, momentos em que as provas de outros vinhos nos incentivam a ir além e nos inspiram. Lembro-me bem, por exemplo, da primeira grande prova de Portos Vintage 2011 em Londres, com amostras ainda em primor, em que alguns me marcaram de tal forma que, quando regressei a casa, fui direto para a sala de provas trabalhar.
As alterações climáticas estão a mudar a forma como fazes vinho ou, sobretudo, a forma como olhas para o futuro do Douro?
TS: As alterações climáticas estão a mudar o mundo, a mudar-nos a todos. E é verdade que exigem do enólogo uma capacidade constante de leitura das condições e de adaptação às mesmas. Na adega e na vinha. Neste contexto, o futuro do Douro, como o de tantas outras regiões, é desafiante. Mas, porventura, o Douro poderá ter ferramentas particularmente úteis, face à diversidade em geral que encerra em si. Diversidade de condições que poderão permitir transitar para zonas menos adversas da região, como o Baixo Corgo, para as cotas mais altas e exposições mais protegidas. E diversidade de castas, cuja maioria inclusive já convive normalmente com condições particularmente exigentes.
Se pudesses sentar-te à mesa com qualquer pessoa, abrir uma grande garrafa e conversar até de madrugada, quem escolherias? E que vinho servirias?
TS: Com o meu avô Edmundo, que praticamente não conheci, uma vez que faleceu quando eu tinha apenas 1 ano. E serviria um Porto branco 80 anos de forma a mostrar-lhe que, aquela que era a tradição mais antiga da família e que na sua época não era infelizmente tão reconhecida, hoje é merecidamente valorizada.
Se um dia deixasses de fazer vinho, o que gostarias que as pessoas continuassem a encontrar numa garrafa tua?
TS: A identidade da vinha que lhe deu origem.
