Nem sempre os projetos mais interessantes nascem de famílias centenárias ou de vinhas herdadas. Às vezes nascem de conversas longas, viagens improvisadas e dois amigos com uma obsessão saudável: provar, perguntar e ir ver com os próprios olhos o que faz de Portugal um país vinícola fora de série.
É assim que começa a história da Conexão Wines, criada por Rodrigo Mendes e Estefânio Morais, dois co-founders que decidiram que não precisavam de ter vinhas próprias para fazer vinhos com identidade. Pelo contrário. A missão é outra: percorrer o país como um mapa vivo, trabalhar lado a lado com produtores locais e revelar terroirs e castas muitas vezes subvalorizados — sempre com mínima intervenção e máximo respeito pela origem. O mais recente capítulo desta viagem chama-se Conexão 2023 – O Segredo. E o nome não é exagero.
Um Douro diferente do óbvio
Este novo tinto nasce no Baixo Corgo, Douro, mas foge ao estereótipo do tinto duriense musculado e pesado. As vinhas têm mais de 25 anos, estão plantadas a cerca de 500 metros de altitude, em encostas de xisto com influência granítica — combinação perfeita para maturações lentas, frescura natural e precisão aromática. O blend é raro e pouco visto: 50% Tinta Francisca + 50% Tinta Amarela. Duas castas que, quando bem tratadas, entregam aquilo que o consumidor moderno anda a pedir (e muito): fruta vermelha limpa, elegância, tensão e leveza com carácter.
O estágio que muda tudo
Em vez de barrica, o vinho estagiou 24 meses em cimento. Resultado? Nada de maquilhagem de madeira. O que se sente é o sítio, a casta e a textura pura da fruta.
No copo, isto traduz-se assim: Nariz: cereja fresca, fruta vermelha viva, pimenta preta bem integrada e um toque subtil de bosque. Boca: tanino finíssimo, textura limpa e uma elegância quase aérea. Final: fresco, longo e vibrante, com aquela tensão que dá vontade de voltar ao copo. Com o tempo em garrafa, promete ganhar ainda mais nuance — morango maduro, delicadeza extra — mas sem nunca perder o equilíbrio.Dados rápidos (para os geeks do vinho): 13,8% vol | Acidez total 5,7 g/L | pH 3,56 | Açúcar residual 0,63 g/L.
Um projeto que é mais do que um vinho
O Conexão não é um rótulo isolado — é um conceito. Rodrigo e Estefânio já exploraram territórios como Douro, Monção e Tejo, sempre com a mesma lógica:
sem vinhas próprias, mas com relações próximas com quem está no terreno, valorizando a economia local e a diversidade portuguesa.
A ideia nasceu depois de uma road trip pelo Douro, no verão de 2023, inspirada por documentários sobre produtores de mínima intervenção. Em vez de teorias, foram ouvir agricultores, pequenos produtores, restaurantes — quem vive a região por dentro. Foi aí que se apaixonaram por estas duas castas e perceberam que havia aqui uma história para contar ao mundo.
A parte (quase) cruel
Só foram produzidas 1.200 garrafas. Vai estar na Garrafeira Nacional e em vários restaurantes de renome em Portugal, Angola e Espanha — o que significa que isto é daqueles vinhos que se bebem agora… ou depois já não há. O Conexão 2023 – O Segredo não tenta impressionar pelo peso ou pela força. Impressiona pela precisão, elegância e autenticidade. É Douro, sim, mas numa versão mais fina, contemporânea e cheia de identidade. E às vezes, o verdadeiro luxo é mesmo isso: um vinho que sabe exatamente de onde vem.
