Não têm vinhas. Têm outra coisa: liberdade para escolher uvas, parcelas e terroirs de diferentes regiões portuguesas. A Conexão quer provar que também se pode fazer vinho assim — e já há algumas garrafas que merecem lugar à mesa.
Há uma ideia muito portuguesa no mundo do vinho: para ser produtor a sério, é preciso ter vinha. Terra própria, parcelas com nome, anos e anos de história. A Conexão decidiu começar por outro caminho.
A marca, criada pela Mendes e Morais WineMakers, trabalha em regime de négociant, comprando uvas a pequenos produtores de diferentes regiões e escolhendo, colheita a colheita, o que fazer com cada parcela. Em vez de estar limitada ao que acontece numa única vinha, pode procurar a combinação certa entre lugar, uva e ano.
É uma espécie de viagem por Portugal dentro de uma garrafa. E, neste caso, a viagem passa por Monção e Melgaço, Douro e Tejo.
A história começou depois de uma viagem ao Douro, em 2023, mas o primeiro vinho da Conexão a chegar ao mercado foi um Alvarinho de Monção, em 2025. Hoje, a marca tem uma gama mais extensa e prepara-se para crescer: em 2026, a produção total deverá passar das 1.500 para as 7.000 garrafas.
O desafio? Crescer sem perder a personalidade de cada vinho.
Comecemos pelo Alvarinho, mas esqueça o previsível
O Conexão Alvarinho nasce de duas parcelas em Monção e Melgaço. Uma, em altitude e com exposição norte, contribui para a acidez, frescura e mineralidade. A outra, numa encosta virada a sul e junto ao rio, acrescenta volume e intensidade aromática.
Até aqui, tudo bem. O que torna este Alvarinho mais interessante é o que acontece depois.
Com seis meses de estágio em barricas de carvalho francês, a casta ganha uma dimensão menos óbvia. Há os habituais citrinos e notas de flor de laranjeira, mas também aparece um lado vegetal e herbal, acompanhado por um toque meloso que dá mais textura e personalidade.
É um Alvarinho para quem gosta de descobrir uma região conhecida por outros ângulos — e uma boa porta de entrada para perceber a lógica da Conexão: procurar diferentes parcelas e deixar que cada uma faça parte do resultado final.
Preço estimado: cerca de 20€
O Segredo está no Douro e não leva madeira
O nome pode parecer misterioso, mas a ideia por trás d’O Segredo é bastante clara: fazer um tinto duriense com uma elegância mais próxima da Borgonha.
Os fundadores da Conexão são fãs de Pinot Noir e quiseram explorar essa ideia no Douro, trabalhando com Tinta Francisca e Tinta Amarela, duas castas menos mediáticas da região. A escolha recaiu sobre o Baixo Corgo, em altitude, entre xisto e influência granítica.
A grande diferença está no estágio. São 24 meses em cimento, sem madeira.
O objetivo é não mascarar o vinho com aromas de carvalho e deixar que o lugar tenha espaço para falar. O resultado é um tinto de 13,8% de álcool, fresco, vibrante, longo e elegante — uma alternativa interessante ao perfil mais musculado e concentrado que tantas vezes associamos aos tintos do Douro.
É provavelmente uma das garrafas da gama para abrir sem pressa, de preferência à mesa e com tempo para perceber como evolui no copo.
Preço estimado: cerca de 27€
Um orange wine que soube travar a tempo
Também do Douro chega o Curtimenta, um vinho de maceração pelicular feito a partir de Gouveio e de um blend de castas brancas.
Aqui, o ano de 2025 teve um papel importante. O verão particularmente quente poderia ter levado a uma extração mais intensa, com mais tanino e fruta mais carregada. A resposta foi fazer precisamente o contrário: encurtar a maceração para nove a dez dias.
O objetivo? Preservar a frescura, a mineralidade e a identidade do lugar.
Depois, oito meses em carvalho francês ajudam a construir um perfil com notas de mel, alperce seco e amêndoa torrada. É um vinho longo, crocante e com uma dimensão oxidativa que o coloca num território especialmente interessante para quem gosta de explorar estilos menos convencionais.
E há outro detalhe: são apenas 2.000 garrafas.
Preço estimado: cerca de 24€
No Tejo, o Castelão muda de personalidade
Se há uma região onde a Conexão quis desafiar expectativas, é o Tejo.
O Castelão Unfiltered nasceu com uma missão muito concreta: mostrar que também é possível fazer, no Tejo, um tinto leve, fresco e cheio de energia, com uma abordagem natural.
Para isso, a marca junta duas parcelas diferentes. Uma, em xisto, no sopé da Serra de Tomar, contribui para a frescura e a tensão mineral. Outra, em solos argilo-calcários, na zona de Torres Novas, acrescenta maturação e volume.
A vindima é antecipada, o vinho não é filtrado e o estágio acontece integralmente em inox. O resultado é um Castelão jovem, juicy e descontraído, com apenas 12,5% de álcool.
É também a garrafa mais acessível da gama — e talvez uma das mais fáceis de levar para uma mesa informal, para um almoço demorado ou simplesmente para abrir porque sim.
Preço estimado: entre 11€ e 12€
E há um Pet Nat cor-de-rosa
Para fechar a viagem pelo portefólio, há ainda o Pet Nat Rosé BIO 2025.
Feito com uvas 100% biológicas, segue o método ancestral, com uma única fermentação que termina na própria garrafa e sem dégorgement. A produção ficou limitada a 600 garrafas — uma escala pequena que, neste caso, faz parte da própria natureza do método.
É um rosé de perfil fresco e seco, com 6,7 g/L de acidez e menos de 0,6 g/L de açúcar residual.
Traduzindo para a linguagem de quem está simplesmente à procura de uma boa garrafa para abrir: é a escolha para quem gosta de bolhas com personalidade e quer fugir ao espumante mais previsível.
Preço estimado: cerca de 25€
Afinal, é preciso ter uma vinha para fazer bom vinho?
A Conexão tem uma resposta bastante simples: não necessariamente.
O modelo permite procurar altitude e xisto no Douro, granito e influência atlântica em Monção e Melgaço, ou combinar xisto e argila no Tejo. Depois, cada vinho é tratado de acordo com aquilo que precisa: cimento, inox, barrica, maceração mais longa ou mais curta.
A ideia não é fazer muitos vinhos iguais. É fazer vinhos diferentes a partir dos lugares certos.
E talvez seja aí que está o interesse da Conexão. Mais do que uma marca com uma coleção de garrafas, é um projeto que parece estar a construir uma espécie de mapa vínico pessoal de Portugal — escolhendo aqui uma parcela, ali uma casta, acolá uma técnica de vinificação.
Para quem gosta de experimentar, há muito por onde começar. Para quem já conhece os clássicos das regiões portuguesas, há novas leituras para descobrir. E para quem simplesmente quer escolher uma garrafa diferente para o próximo jantar, a regra pode ser simples: comece pelo estilo que mais lhe apetece.
Um Alvarinho com um lado vegetal inesperado. Um tinto do Douro sem madeira. Um orange wine de pequena produção. Um Castelão leve e juicy. Ou umas bolhas cor-de-rosa feitas pelo método ancestral.
A Conexão quer, no fundo, fazer jus ao nome: ligar pessoas, castas e territórios. E, neste caso, a melhor maneira de perceber a ideia é mesmo abrir uma garrafa.
